histórias

2. Foi numa noite dessas que vivi cinco dias

Parte 1 – A noite de Dani

Domênico

É, parece que nem a bebida e o encontro com pessoas diferentes em clima de festa, seriam capazes de curar ou apagam os problemas e sentimentos mal resolvidos.

– Não adianta fugir ou fingir.

Muitas histórias são vividas a todo momento. Pessoas tristes, felizes, ou achamos. No fundo só parece mesmo. Histórias de encontros e desencontros, de talvez ou de certezas de mais. Dani não era a única. Seria egoísmo de mais sofrer sozinha, mesmo que sem saber.

Domênico, um cara muito conhecido de norte à sul do país, um homem pardo, alto, com um sorriso contagiante, braços fortes e olhos verdes. Vivia uma das melhores fases de sua vida profissional e tinha tudo o que queria.

É incrível a nossa capacidade de resumir superficialmente um alguém ou uma situação. Não precisamos de muito, nem queremos, pois no fundo não nos importamos. Apenas queremos uma história para nos encantar.

Não importa quantos fã-clubes, a quantia de zeros na conta bancária, qual o próximo modelo de carro importado que irá usar na terça-feira de folga ou qual o look do dia. Até mesmo um astro sertanejo têm seus dias ruins.

Era uma noite de sábado, Domênico e seu irmão, o qual formava uma dupla sertaneja de grande sucesso, fariam um show no interior do estado de São Paulo e a apresentação começaria cedo, seguindo todas as programações da organização.

Ao início do show, o público agitava e interagia com os músicos. Foram aproximadamente duas horas de apresentação, onde todos ali presentes se emocionaram, mas uma música em especial acabou emocionando não só o publico, mas fizeram lagrimas rolarem dos olhos de Domênico. Era lançamento e ele a cantou com muita emoção.

Ao término da apresentação um DJ assumiria o palco para levar a galera ao delírio. Ele não sentia-se completo, não sabia exatamente o que era. Tinha uma família linda, a mulher que quisesse, mas algo, isso mesmo, algo faltava. Talvez o fato de não saber “o que”, o deixava mais desorientado. Trabalhava muito e amava fazer o que fazia, mas aquela noite irá mudar a sua vida.

Até mesmo um ídolo, pode passar por momentos de cansaço, exaustão e um surto de querer largar tudo.

-Ele iria passar por isso.

Após a apresentação, os músicos e irmãos tiveram uma discussão e, como Domênico já não estava em seu melhor momento emocional, resolveu sair do local sem a sua equipe. Estava com tanta raiva e sem raciocínio que nem sabia como sair ou pra onde iria, então sem perceber deparou-se em meio ao estacionamento.

Dois mundos, duas histórias, dois caminhos totalmente diferentes iriam se cruzar.

Antes de ligar o carro, Dani se questiona sobre o motivo de tanta dor. Algo tão forte que em minutos já nem sentia mais nada. Como se seu coração estivesse perdido o sentido de bater, como se talvez tivesse que aceitar que o motivo da sua existência realmente seja sofrer, mas se parar de se importar, a dor iria embora. Independente da resposta nada iria mudar o que estava sentindo, pois não há nada mais doloroso quanto o vazio.

Ela só queria paz, então saiu em busca dela, mesmo sem saber o que era.
Ao ligar o carro, avistou um homem em seu caminho. Ele andava diferente, não como um embriagado, mas como se estivesse levado uma pancada na cabeça e prestes a perdendo os sentidos. Tentou prosseguir até a saída do estacionamento, quando o homem atravessou na frente de seu carro. Dani logo parou o carro e desceu, pois notou que precisaria ajudá-lo.


-Boa noite, você está bem? Posso te ajudar?


Com os olhos cheios de lágrimas e voz fraca, o homem a olhou nos olhos e lhe respondeu:


-Eu só quero paz! Só não sei onde encontrar. Dói, dói muito aqui dentro.

Disse batendo no peito e o silêncio predominou por segundos que mais pareciam minutos.

Assustada, Dani disse que iria comunicar uma unidade de emergência que estava no local, mas o rapaz se negou. Disse que não precisava de um hospital.

Havia algo de diferente em seu olhar. Ele parecia ferido na alma. Pensou Dani que se comoveu com o que viu e ouviu. Não o conhecia, mas sentia que se o ajudasse, isso não iria diminuir também sua própria dor, mas sua alma teria o conforto de talvez ser útil na vida de alguém que também busca por paz.

-Também estou buscando essa tal de paz. Se prometer não fazer nada de ruim contra mim, podemos procurá-la juntos.

O homem não tinha com quem ou pra onde ir, então disse:

-Ok, desde que me prometa o mesmo.

Sorriram e, juntos pela primeira vez.

Continua.

Francielle Cordeiro